KOREA
LINHA DO TEMPO
A história da evolução da Península Coreana é complexa e cheia de reviravoltas.
Entender um pouco desse processo evolutivo nos ajuda a compreender narrativas nacionalistas que interferiram inclusive, nas histórias das artes marciais modernas coreanas. 
Abaixo, segue uma resumida Linha do Tempo de acontecimentos marcantes que moldaram a península, resultando nas duas nações conhecidas atualmente como Coreia do Sul e Coreia do Norte.

I. Período Antigo ao Fim da Dinastia Joseon (Séc. XXIII a.C. - 1895)


Séc. XXIII a.C. - Séc. I a.C.
Período de Gojoseon e Confederações Samhan
Migração da Sibéria e Manchúria para a península, com tecnologias de fundição de bronze e agricultura, levando à estratificação social. Consolidação do reino proto-histórico de Gojoseon e, posteriormente, das Confederações Samhan (Mahan, Jinhan e Byeonhan), que assentaram as raízes étnicas "Han" da península.

108 a.C.
Invasão Han e Queda de Gojoseon
O imperador Wu (Dinastia Han) buscava cortar suprimentos do Império Xiongnu e estender domínio político fiscal. Destruição de Wiman Joseon e criação das comendadorias chinesas, desencadeando uma resistência tribal secular e assimilação da burocracia e escrita chinesa (Hanja).

Séc. I a.C. - Séc. VII d.C.
Período dos Três Reinos (Samguk Sidae)
A necessidade de expansão territorial e estruturação das primeiras monarquias centralizadas para expulsar a presença chinesa resultou na formação dos três reinos de Goguryeo, Baekje e Silla, além da Confederação de Kaya (absorvida por Silla em 562 d.C.). Pinturas de Goguryeo registram práticas de jogos recreativos como o Ssireum, sem evidências de sistemas marciais militarizados desarmados.

Séc. VI d.C.
A Sociedade Hwarang (Reino de Silla)
Estruturação de uma elite social formada por jovens aristocratas focada na educação sob preceitos intelectuais, morais, estéticos, poéticos e religiosos. A ideia moderna de que eram uma "elite militar letal" análoga aos samurais é uma "Tradição Inventada" do séc. XX, com base em falsificações literárias como o apócrifo Hwarang Segi, para conferir linhagem guerreira às artes marciais contemporâneas.

668 d.C. – 676 d.C.
Unificação sob Silla (Silla Unificada)
A aliança militar estratégica de Reino de Silla com a Dinastia Tang (China) para destruir Baekje e Goguryeo resultou na aniquilação das forças rivais. Silla posteriormente expula os exércitos Tang, garantindo a centralização do governo da península sob único polo geopolítico estável por mais de dois séculos.

Final do Séc. IX
Colapso de Silla e os "Três Reinos Posteriores"
A corrupção central em Silla Unificada, gerada pela aristocracia com impostos extorsivos, resulta em revoltas maciças de camponeses e gera um vácuo de poder, fragmentando o território. Senhores da guerra fundaram então Baekje Posterior (Hubaekje) e Goguryeo Posterior (Taebong).

918 d.C. – 936 d.C.
Golpe de Wang Geon e Dinastia Goryeo
O general Wang Geon depõe o líder tirano Gungye (líder de Goguryeo Posterior) e funda Goryeo (918). Unifica a península ao absorver pacificamente a nobreza de Silla (935) e derrotar Baekje Posterior (936). Textos históricos registram a prática de Subhak como uma atividade recreativa e de demonstração de força física apreciada pela corte. O exônimo "Coreia" difunde-se no Ocidente nessa era através de cartógrafos árabes e narrativas de Marco Polo, que transliterou a pronúncia chinesa Gauli (Goryeo) para Cauli.

1392
Fundação da Dinastia Joseon
O General Yi Seong-gye funda a nova dinastia com apoio de acadêmicos neoconfucionistas, um Estado Tributário vassalo da China Ming. O neoconfucionismo, como ideologia de Estado, marginaliza severamente as classes militares em favor da burocracia civil.

1443 – 1446
Criação do Hangul
O Rei Sejong, O Grande,  promulga o sistema nacional de escrita fonético, vernacular e científico (Hunminjeongeum) para erradicar o analfabetismo entre plebeus, superando a exclusividade dos ideogramas chineses (Hanja), que eram inacessíveis à plebe.

1790
Publicação Militar do Muye Dobo Tongji
A necessidade de reformar o exército “coreano” após a devastação das invasões japonesas e manchus, levou a coroa a editar e publicar o Muye Dobo Tongji, comprovada pela historiografia de ser uma compilação baseada predominantemente em tratados chineses e esgrima japonesa, atestando a ausência de um sistema desarmado exclusivamente nativo formalizado.

Sec. XIX
Práticas Folclóricas
Atividades como o Taekkyon e o Ssireum são registradas estritamente como recreações competitivas folclóricas de festivais entre vilas, não como artes de estruturação militar.

1876
Tratado de Ganghwa
O isolamento de Joseon é quebrado sob pressão militar e diplomática do Império do Japão.

1894
Reformas de Gabo
O governo obriga toda a população civil (incluindo plebeus e pessoas escravizadas) a adotar sobrenomes (antes exclusivos da nobreza). Visando um melhor status social, a vasta maioria adota nomes de linhagens de antigas elites,  gerando a alta concentração demográfica atual de nomes como Kim, Lee e Park.

1894 – 1895
Rebelião Donghak e a Primeira Guerra Sino-Japonesa
Com o pretexto da rebelião camponesa de Donghak (apoiada pela Dinastia Qing), o Japão impôs esmagadora derrota à dinastia chinesa Qing. Para evitar a invasão, a China é forçada a render-se sob os termos do Tratado de Shimonoseki (1895). A contrapartida exigida pelo Japão foi a China entregar o território de Joseon (reconhecendo sua "independência") e ceder Taiwan e Ilhas Pescadores. Isso removeu o escudo protetor da Coreia, deixando a península isolada e à mercê dos japoneses.

II. Declínio Monárquico e Período Colonial Japonês (1895 – 1945)

1895
Incidente de Eulmi
O assassinato da Imperatriz Myeongseong por agentes japoneses consolida a perda de autonomia da corte.

1896 – 1897
Agwan Pacheon
O Rei Gojong refugia-se na legação diplomática russa em Seul, gerando uma breve fase de alinhamento político e militar com o Império Russo.

1897
Império Daehan
Proclamação do Império Daehan Jeguk pelo Rei Gojong numa tentativa de afirmar a soberania nacional perante as potências estrangeiras, porém o Ocidente ignora o novo nome diplomático. O termo Daehan foi escolhido na tentativa de vincular a história do novo império com sua ancestralidade da era Samhan. Porém, o exônimo KOREA consolidado mundialmente, manteve-se como o principal reconhecimento do novo império. Isso significa que o “nome” do país KOREA (Coreia) não existe diplomaticamente, mas sim DAEHAN.

1905
Tratado de Eulsa
A assinatura do Tratado de Eulsa, estabelecendo o Protetorado Japonês sobre a Coreia e desmantelando as forças armadas locais.

1910
Colonização
Anexação formal da Coreia pelo Império do Japão, dando início ao período colonial (1910-1945).

1910 – 1945
Domínio Colonial e a Transferência Marcial
Durante a colonização impõe-se um severo regime de terror com escravidão, abusos sexuais (mulheres de conforto) e supressão cultural. As autoridades coloniais banem ou desestimulam práticas folclóricas locais e introduzem oficialmente o Judô e o Kendo no currículo escolar público e na formação policial. O jogo folclórico Taekkyon entra em severo declínio.

1919 – 1945
Governo Provisório
Em oposição à ocupação, o Governo Provisório da República da Coreia é criado no exílio, em Xangai.

1930 – 1940
Imigração e a Matriz Técnica Externa
Coreanos imigram para o Japão em busca de estudos superiores ou trabalho durante a ocupação colonial e aprendem modalidades nipônicas de combate. A historiografia comprova que os fundadores das modernas artes coreanas estudaram Karatê Shotokan e Karatê Shudo-ryu com mestres japoneses, desconstruindo mitos de linhagens nativas milenares.

III. Vácuo Pós-Libertação, Governança e Guerra (1945 – 1953)

1945 (Agosto - Setembro)
Libertação e Divisão no Paralelo 38
Fim da Segunda Guerra com a rendição do Japão, seguida da divisão da península no Paralelo 38 sob ocupação americana no Sul (USAMGIK) e soviética no Norte. O Governo Provisório no exílio é escanteado politicamente por ambas as potências. No Norte, instalam-se Comitês Populares sob forte tutela soviética, avançando rapidamente para a nacionalização e reforma agrária em 1946.

1945 – 1948
A Era das Kwans e a Administração no Sul
Abrem-se as Kwans ensinando o Karatê japonês (sob “nomes” Kong Soo Do / Tang Soo Do), servindo por vezes como milícias de direita. Em 1948, Choi Yong Sool inicia o ensino de Hapkiyusul (base do Hapkido moderno).

1948
Fundação das Duas Repúblicas Rivalizantes
assassinado. Em setembro, funda-se a República Popular Democrática no Norte, estado totalitário de Kim Il-sung (Comitê Popular Provisório).

1950 – 1953
Guerra da Coreia e Zona Desmilitarizada (DMZ)
O Norte invade o Sul militarmente na tentativa de unificação territorial e ideológica, apoiado pela China e União Soviética. O Sul contra-ataca com apoio dos EUA e da ONU. O Armistício de 1953 encerra combates ativos, substituindo o Paralelo 38 pela Linha de Demarcação Militar (MDL) e criando a DMZ. A relação entre as duas Coreias é a de um armistício contínuo até hoje; tecnicamente a guerra nunca acabou. O conflito causou destruição massiva e desestruturou as academias civis de artes marciais.

IV. Militarização, "Tradição Inventada" e Controle Estatal (1955 – 1979)

1955
Proposição do termo "Taekwondo"
Surge a necessidade política nacionalista de expurgar as terminologias e heranças japonesas.  O Karatê japonês passa por uma transformação cultural; líderes cunham o termo "Taekwondo", uma fusão de termos nativos com sino-coreanos, forjando a narrativa mitológica (Tradição Inventada) de linhagem ligada aos antigos guerreiros e ao folclórico Taekkyon.

1958 – 1961
Híbridos Letais e o Hapkido Moderno
A necessidade de adaptar o Hapkiyusul (focado em chaves articulares da matriz ortodoxa) às demandas táticas e mercadológicas locais, inspirou o mestre Ji Han-jae a consolidar a vertente “moderna” da arte com inserção maciça de chutes complexos (Jok-sul) e armas, adotando politicamente a abreviação “Hapkido”, mantendo-o focado em defesa pessoal paramilitar, operando fora do monopólio estatal unificado.

Anos 1961 e 1963
Regime Militar e Ingerência Desportiva
O Golpe de Estado do General Park Chung-hee impõe centralização total visando ordem e desenvolvimento acelerado que promulga a lei de Promoção do Desporto Nacional, estabelecendo o rígido intervencionismo estatal físico, atlético e administrativo nas academia.

V. Burocracia, Revisionismo, Hallyu e Contemporaneidade (1980 – Atualidade)

1971 – 1973
O Monopólio Estatal Olímpico do Taekwondo
O ditador Park Chung-hee decide forjar uma identidade esportiva global unificada, usando laços com a elite corporativa militar. O Taekwondo é chancelado desporto nacional ("Gukki Taekwondo"). O Kukkiwon é inaugurado como Corporação Especial (Teuksu Beob-in) com orçamentos estatais bilionários, acompanhado da fundação da World Taekwondo Federation (WTF). Transmutação final da arte letal para um esporte diplomático olímpico unificado. As vertentes de Hapkido permanecem civis, fragmentadas (Sadan Beob-in e Jaedan Beob-in) e sem subsídios governamentais comparáveis.

Anos 1970 e 1980
Mercantilismo e as Fraudes Históricas (Gicheonmun / Haedonggumdo)
O monopólio do Taekwondo sufoca o mercado civil; empreendedores lançam novas modalidades embaladas em profundo revisionismo para atrair o nacionalismo do público. Empreendedores forjam lutas civis para rivalizar no mercado, mascarando metodologias de wushu (Gicheonmun) e kendo (Haedonggumdo) sob mitos. O Haedonggumdo fabricou o mito de origens ininterruptas atreladas à antiga elite "Samurang". Pesquisas científicas e tribunais civis desconstruíram essas farsas: a classe "Samurang" sequer existiu historicamente, tratando-se de plágios comerciais mesclando Kendo japonês adaptado e exibições marciais chinesas; o caso foi parar nos tribunais e os fundadores confessaram a manipulação histórica.

1982
Criação do Ministério dos Esportes
O Estado centraliza totalmente o desenvolvimento físico nacional e os bilionários fundos lotéricos (KSPO) sob uma única pasta ministerial governamental, atrelando os subsídios aos esportes de padrão olímpico unificado. Isso intensificou os investimentos nos esportes olímpicos por busca de medalhas e reconhecimento internacional. A aposta no Taekwondo aumentou ainda mais elevando a cobrança por resultados.

Anos 1980 e 1990
Cerco Burocrático ("Pontos Extras") e Êxodo Marcial (Mikuk Beob-in)
Para admissão na polícia e serviço público, o Estado aplica pontuações (Mudo Gasanjeom) unicamente para os afiliados de grandes federações oficiais. Asfixiados pela falta de representação, mestres de Hapkido e pequenas Kwans migram para os EUA (as Mikuk Beob-in) para atuar sem o sufocamento burocrático de Seul.

Anos 1990 – 2000
Redemocratização, Hallyu e Consenso Científico
A historiografia contemporânea consolida a desconstrução acadêmica dos mitos, validando que Taekwondo e Hapkido são, cientificamente, híbridos do séc. XX baseados em matrizes nipônicas. A nação adota ativamente as artes marciais desportivas como ferramentas puras de Soft Power global (Hallyu e Peace Corps) e afasta-se dos velhos ideais paramilitares.

2008 – 2015
Patrimonialização Emergencial
Acossado pela mercantilização do esporte e monopólios globais, o Estado emite robustos decretos de resgate e fomento financeiro para conferir status de Patrimônio Cultural Imaterial - junto à UNESCO - aos jogos folclóricos do Ssireum e Taekkyon, evitando o desaparecimento deles.

2019 – 2020
Obrigatoriedade Comercial Desportiva
Toda a cadeia burocrática do governo força os dojangs (mesmo não chancelados nas grandes federações, como os de Hapkido) a se licenciarem fiscalmente nas prefeituras como entidades oficiais de instalação esportiva comercial para seguirem funcionando.

Anos 2020 – Atualidade
Reformas Humanitárias e Crise Demográfica
Uma profunda indignação civil com casos de abusos a atletas faz o governo criminalizar a violência entre técnicos da velha guarda de "caça a medalhas". Paralelamente, o colapso na taxa de natalidade do país obriga todas as federações a adaptarem as instalações esportivas para práticas de longevidade e funcionalidade, mirando a sobrevivência financeira através do mercado da terceira idade.
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